Postado Por : Emerson Wendt segunda-feira, 22 de março de 2010

Por Eduardo Pascoal de Souza (1)


Nos ambientes de discussão apresenta-se a idéia de que a investigação criminal precisa se modernizar, uma vez que o tirocínio policial (2) não é a postura adequada para quem deseja executar o trabalho investigativo.

A investigação criminal por sua natureza é interdisciplinar, o que exige a participação de diversos atores, assim, consolida-se a posição de que:

“...o incremento da investigação criminal e a qualidade das provas colhidas somente ocorrerão quando os crimes passarem a ser enfrentados pela integração (cooperação mútua e troca de informações) dos (entre) órgãos estatais voltados à identificação, à prevenção e à repressão da criminalidade.” (Mariath, 2009).


Para que ocorra esta integração, surge o conceito de atividade policial orientada pela Inteligência (Intelligence-Led Policing) e Gestão do Conhecimento, como uma das situações capazes de propiciar esta situação, uma vez que possuem a capacidade de gerar um comportamento que promove a força coletiva em extrair o potencial da informação e conhecimento, seja da relação entre as pessoas que compõem o público interno e externo da organização, seja da relação entre as organizações no respectivo meio ambiente.


Razão pela qual a Inteligência deixou de ser área exclusiva do Estado e já se apresenta na iniciativa privada como Inteligência Estratégica e Competitiva.

 
Até porque: “uma empresa nada mais é do que um grupo de pessoas (negrito meu) que detém conhecimento sobre uma área específica” (PINHEIRO, 2009), assim, produz informações e conhecimento, bem como aprende e se adapta às adversidades a que está sujeita.


Portanto, se falamos na capacidade de gerar comportamento em conjunto de pessoas, se falamos em atividade policial orientada pela Inteligência e Gestão do Conhecimento, a questão vai além de alguns conceitos científicos aliados às novas tecnologias, voltados à atividade de investigação criminal.


Trata-se de uma maneira especial de redefinir os papéis dos atores envolvidos neste processo, valorizando pessoas e organizações em suas qualidades, uma vez que neste contexto, o potencial particular de cada um deve ser liberado e otimizado numa perspectiva coletiva. Enfim, é uma situação em que cada pessoa e organização percebe a sua parcela de contribuição na construção do conhecimento, inclusive de uma investigação criminal.


Nessas circunstâncias, o famoso “faro” ou “tino” do investigador policial revela o seu valor, pois se falamos em liberar e integrar o potencial particular de cada ator na investigação criminal, aquela “percepção peculiar” também tem o seu papel de relevância.


Analisar informação e produzir conhecimento em uma investigação criminal é antes de tudo, uma nova postura que as pessoas devem tomar diante da informação e conhecimento, muitos se equivocam ao imaginar que isto é coisa restrita a cenários hollywoodianos high - tech ou a alta capacidade de processamento de dados, em que a tecnologia por si só deve responder aos problemas globais.


O filme “Rede de Mentiras” (Body of Lies) aborda bem esta questão, em que a Central Intelligence Agency (CIA) com todo o seu aparato tecnológico falha no resgate de um agente (Leonardo DiCaprio), prisioneiro de terroristas, o qual é salvo por uma equipe local de agentes jordanianos que se vale do potencial das pessoas e suas relações, situação esta responsável pelo êxito da operação.


É comum observarmos algumas organizações com os slogans publicitários: “O Banco da Nossa Gente”, “Nós entendemos de Gente”, “Você é o mais importante”, “Banco do João, Banco da Maria” etc., a intenção é comunicar que a organização tem como preocupação principal as relações pessoais, que as outras questões como finanças, processos operacionais, metas, dentre outros, são decorrentes do potencial humano articulado coletivamente.


O elemento humano é o diferencial, quanto às invenções e tecnologias são reservadas as tarefas em reproduzir de forma amplificada, as funcionalidades do homem, ou seja, a de servir como alavancadores do potencial das pessoas, senão vejamos: o trator – a força muscular, o avião – a locomoção, o hardware – a estrutura cerebral e o sistema nervoso, os softwares – a cognição e outros processos que envolvem o pensamento etc.


No caso da Inteligência e Gestão do Conhecimento: “os computadores gerenciam dados, os programas transformam os dados em informação e as pessoas interpretam (negrito meu) a informação e a utilizam para criar conhecimento sobre determinado assunto.” (PINHEIRO, 2009).


Cabe lembrar que a informação e o conhecimento não fluem exclusivamente nas redes de informática, mas também nas pessoas, coisas e suas respectivas relações.


A capacidade humana é conclusiva na atividade de Inteligência e Gestão do Conhecimento, este potencial se manifesta principalmente pelas qualidades pessoais, não é de se estranhar que a atual tendência nos processos seletivos das organizações é avaliar essa situação no candidato e não o volume de informações em sua mente.


Assim, porque não devemos entender que aquela percepção pessoal, aquele “faro” ou “tino”, também é uma habilidade inata, que se manifesta no policial investigador como revelação do seu talento criativo.


Talvez seja por isso o fato desta capacidade antes ser restrita a poucos atores da investigação, uma vez que o mesmo se dava eventualmente, em caráter auto-didático, como fenômeno da natureza humana.


O seu aprendizado e desenvolvimento eram artesanais, vou além, talvez se apresentasse como um dos poucos recursos lícitos na história da investigação criminal, cujo passado é marcado por esclarecimentos escusos, senão vejamos a Santa Inquisição.


Porém, não devemos confundir tirocínio com “achismo” (3), o cotidiano nos mostra que as pessoas regularmente se enganam, ao julgar que estão sob uma condição de especial de percepção, sendo que na verdade, por questão de amadorismo, atuam desqualificadamente, o que contribuiu para formar um preconceito quanto à figura do tirocínio.


O nosso cenário mudou, face ao desenvolvimento tecnológico e científico, as atividades humanas aumentaram em produção de informações e conhecimentos, bem como se tornaram globalizadas, não conseguindo ser mais abrangidas por capacidades individuais.


O “tino” ou “faro”, decorrente de um talento individual e isolado tornou-se obsoleto, não por falta de qualidade, mas por não ter sido otimizado coletivamente, agregado com outros elementos, em face da falta de arquitetura organizacional, científica e tecnológica das organizações pertinentes.


Com certeza, Polícia que pretende agir em problemas complexos exclusivamente pelo tirocínio, não alcançará um resultado condizente à altura do que é solicitado.


Entretanto, com a idéia de atividade policial orientada pela Inteligência e Gestão do Conhecimento, este “faro” ou “tino” investigativo transmuta-se de uma escala aritmética para geométrica, de uma perspectiva individual para coletiva, com o potencial de agregar valor à investigação criminal.


Estimular o pensamento criativo é a situação mais buscada pela Inteligência e Gestão do Conhecimento, o que não é diferente com o policial investigador, em que a sua imaginação é alimentada pelo “tino” e “faro”.


“Os julgamentos analíticos, demandam a habilidade para imaginar (negrito meu) possíveis causas e resultados de uma situação. Nem todos os resultados possíveis são "dados". Os atores envolvidos neste processo devem pensar sobre “aqueles”, imaginando cenários que expliquem como os mesmos como podem ocorrer”. (THOLT, Carlos, 2006).


O julgamento analítico se pratica na investigação criminal, a fim de construir hipóteses sobre eventos que podem ocorrer, bem como aos que já ocorreram, pertinentes ao crime em apuração.


A imaginação, assim como o conhecimento, é necessária para reconstruir as causas de um problema em estudo, surge agora a criatividade na investigação criminal, antes apontado como “tino” ou “faro”, para ajudar a questionar coisas que têm sido assumidas como verdadeiras por longo tempo.


O tirocínio policial, revelado como manifestação da imaginação e criatividade num contexto de Inteligência e Gestão do Conhecimento, surge como capital intelectual de extrema relevância para as organizações policiais de investigação, da mesma forma como já ocorreu na maioria das outras empreitadas humanas, quando se trata da necessidade de inovação e adaptação.


REFERÊNCIAS

CHIAVENATTO, Idalberto. Gestão de Pessoas. Editora Campus. São Paulo: 2004.
FERRO JÚNIOR, Celso Moreira. A Inteligência e a Gestão da Informação Policial. Editora Fortium. Brasília/DF: 2008.
KIRKHAM, George L. De Professor a Policial. Acesso em 02/09/2009, disponível: http://www.forumseguranca.org.br/links/de-professor-a-policial e http://www.ssp.df.gov.br/sites/100/164/00000136.pdf.
DE LINE, Donaldi e SCOTT, Ridley. Body of Lies (Rede de Mentiras). Warner Bros. EUA:2008.
MARIATH, Carlos Roberto. Investigação criminal e sua necessária releitura. Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Brasília/DF: 2009. Acesso em 08/04/09: http://www.forumseguranca.org.br/artigos/investigacao-criminale-sua-necessaria-releitura.
PINHEIRO, André Reis Pinheiro. Curso de Ensino à Distância em Inteligência Competitiva. Fundação Getúlio Vargas. Rio de Janeiro/RJ: 2009.
SENASP/MJ, Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça. Curso de Investigação Criminal. Programa Nacional de Segurança com Cidadania/Rede Nacional de Ensino à Distância - PRONASCI/EAD. Brasília/DF: 2008.
THOLT, Carlos. Decida com Inteligência. Editora Thesaurus/ABRAIC. Brasília/DF:2006.

(1) Eduardo Pascoal de Souza é bacharel em Direito habilitado pela OAB/SP (1998), pós-graduado em atividade policial judiciária, policial civil há dez anos pela Polícia Civil do Distrito Federal e usuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, e-mail – pascoaldesouza@yahoo.com.br.
(2) Tirocínio - Capacidade de percepção que vai além dos cinco (5) sentidos habituais; faculdade sensorial de capitar, definir e identificar algo; capacidade adquirida pela reiterada pratica de uma profissão ou ofício.
(3) Achismo - Tendência em avaliar as situações segundo as próprias opiniões ou intenções, muitas vezes sem justificação. Dar certeza às coisas sem uma base plausível.
(4) O autor tem os seguintes artigos publicados no Conseg:
A - Sobre as semelhanças e diferenças entre investigação e inteligência.
B – A modernização das polícias civis – A carreira de agente de polícia civil do distrito federal como ramo especializado da polícia judiciária e segurança pública.
C – A interdisciplinaridade como uma das bases da inteligência policial.
D - O que implica para a segurança pública a democratização da tecnologia?
E - Inteligência na segurança pública é uma nova postura ante a informação.
F - O nome dos órgãos da segurança pública em discussão.

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